Presidente da CNH na América Latina revela que a empresa investiu pesado em automação, inteligência artificial e parcerias estratégicas durante a queda nas vendas de máquinas agrícolas. Com R$ 200 milhões aplicados em inovação no Brasil, a montadora busca eficiência para liderar o mercado quando a economia voltar a crescer.
Nos últimos três anos, enquanto a indústria de máquinas agrícolas enfrentava um período de retração prolongada nas vendas, uma transformação silenciosa acontecia nas fábricas da CNH no Brasil.
Ao lado dos robôs que fazem a solda nas grandes chapas de aço na linha de montagem, foram instalados robôs auxiliares, que atuam como operadores, fazendo parte dos setups, programando o equipamento principal e gerenciando algumas ações do equipamento principal.
- A CNH investiu mais nos últimos três anos em tecnologia do que nos cinco anos anteriores.
- A empresa criou uma fábrica de software própria no Brasil para apoiar a manufatura.
- R$ 100 milhões foram investidos na nacionalização de plataformas em Curitiba.
- R$ 100 milhões foram destinados às novas linhas Case IH Farmall C e New Holland T5.
- O Congresso SAE Brasil 2026 ocorre nos dias 6 e 7 de outubro, focado em automação.
O aumento de qualidade e de eficiência é gigante, afirma Rafael Miotto, CEO da CNH para a América Latina, em entrevista ao AgFeed.
A co-robotização, como os engenheiros batizaram essa parceria entre dois equipamentos autônomos, é um dos exemplos dos investimentos anticíclicos que a companhia tem feito nesse período, para se adequar a um novo cenário de mercado, em que não basta produzir mais para crescer.
A necessidade de flexibilidade industrial
A indústria, diz, tem de ser mais eficiente e flexível. A lógica é simples, na visão de Miotto. O setor de máquinas agrícolas trabalha com produtos complexos, com muitos modelos, mas com volumes bem menores do que o automotivo, por exemplo.
Não há 50 mil colheitadeiras iguais para automatizar uma linha de solda como se automatiza uma linha de carros, explica.
Esse tipo de observação moveu a CNH em um momento em que a indústria de máquinas agrícolas vive um ciclo de baixa prolongado. Investimos, nos últimos três anos, mais do que nos cinco anteriores em tecnologias para aumento de produtividade e eficiência, diz Miotto.
Ele descreve o cenário atual como de transformação acelerada. As margens apertadas, dificuldade dos agricultores em investir produziram, como consequência, uma indústria de máquinas bem menor do que a normal. Isso, a seu ver, aumenta o nível de responsabilidade e profissionalização de todos os elos do setor.
Mudanças estruturais no agronegócio
Miotto lembra que os ciclos da agricultura se alternam a cada quatro a seis anos, há décadas. Mas ressalta que a agricultura de hoje não é a de 20 anos atrás, seja em escala, em diversidade de culturas, em tecnologia aplicada ou ferramentas financeira.
Estamos em um ciclo que acontece num momento de complexidade bem maior do que era, resume. E, na sua visão, na saída desse ciclo as empresas precisarão estar prontas para atender demandas mais específicas, com rapidez e qualidade. Acho que a volta vai ser hora de investir mais, mas com um investimento muito mais qualificado.
A CNH quer estar pronta quando esse momento chegar e, para isso, tem olhado para fora da indústria de máquinas. A co-robotização, por exemplo, passou por pilotos e hoje está em expansão em todas as fábricas da empresa no Brasil.
Ela foi inspirada em modelos encontrados em outros segmentos. A gente não encontrou no mundo nenhuma indústria que tenha uma solução pronta. A gente foi encontrar as melhores ferramentas, os conhecimentos, e construiu isso agora, no ciclo de baixa. A necessidade é a mãe das invenções, afirma.
Tecnologia e inteligência artificial
O conceito é a porta de entrada para uma transformação mais ampla. Miotto conta que, para poder ser mais autônoma e assertiva nas soluções, a CNH passou a programar softwares in-house para o projeto.
A companhia mantém uma software factory global, com equipe dedicada no Brasil para dar suporte à manufatura e às operações. Com a inteligência artificial, a gente viu a possibilidade de fazer algo que cinco anos atrás a gente teria que depender de alguém que trouxesse a solução pronta, disse.
Ao mesmo tempo, a complexidade crescente empurra a CNH para mais alianças. A companhia adota uma filosofia de ecossistema aberto, com arquitetura de precisão desenhada para receber novos parceiros.
Dentro dessa filosofia, Miotto é o presidente da edição 2026 do Congresso SAE Brasil, que acontece nos próximos dias 6 e 7 de outubro, e reúne representantes de diversos segmentos para discutir temas ligados à automação nas indústrias.
Esse congresso cai no momento certo, porque a gente começa a conversar com empresas automotivas, empresas de setores que a gente nem imaginava, trocando figurinhas, ideias sobre automação e até colaborando, fazendo coisas juntos, afirma.
Para Miotto, a busca de soluções fora do agro é parte central da transformação, saindo das ciências habituais e buscando parceiros que entendam de inteligência artificial, automação e software.
A inteligência artificial, a automação, os veículos inteligentes e a tomada de decisão orientada por dados cada vez mais robustos estão acelerando a convergência entre o presente e o futuro do campo e a inovação e implementação precisam acontecer de forma quase simultânea, não há mais espaço para ciclos longos entre pesquisa e aplicação prática, concorda Claudio Castro, presidente da SAE Brasil.
Investimentos em inovação e novas linhas
Na CNH, além da transformação dentro das fábricas, essa integração começa a surgir nos novos equipamentos que chegam ao mercado, fruto de um investimento que soma R$ 200 milhões no Brasil, apenas na área de inovação.
Esses números se desdobram em diferentes frentes. Na unidade de Curitiba, por exemplo, a CNH fez um aporte de R$ 100 milhões na nacionalização da produção das plataformas de produção e outros R$ 100 milhões no desenvolvimento das novas linhas Case IH Farmall C e New Holland T5, que, segundo ele, ganham mais tecnologia, conectividade, eficiência e produtividade para atender às demandas do campo na América Latina.
O ano de 2025, destaca, foi o de maior volume de lançamentos da CNH na Agrishow em dez anos, com mais de 30 produtos. Em 2026, o principal lançamento foi o trator T5. Segundo ele, novas linhas de produtos estão em desenvolvimento para os próximos três anos, além de mais investimentos em eficiência industrial em todas as plantas.
Sinais de recuperação do mercado
Para Miotto, o ano que vem deve marcar o início da saída do ciclo de baixa. Eu acho que a gente começa a ter uma visibilidade mais positiva, disse. Ele lembra que os clientes ainda convivem com liquidez baixa e pressão, mas que o preço das commodities começa a se recuperar, com relação oferta-demanda mais favorável.
Juros altos no Brasil e na Argentina, porém, seguem como desafio. Para ele, a retomada, quando vier, será mais qualificada, com demanda sobretudo para máquinas de maior potência e tecnologia agregada, como colheitadeiras de grãos, tratores pesados, grandes plantadeiras e pulverizadores, justamente as linhas que mais caíram no ciclo.
Miotto diz que ficam lições desses anos mais difíceis, para a indústria e o produtor. Aprendemos que só se controla o que acontece da porteira para dentro. O que está da porteira para fora, você não tem controle. Então, o único jeito de estar preparado no ciclo de baixa das commodities é ser excelente da porteira para dentro, conclui.


Rafael Miotto, CEO da CNH para a América Latina


