A COP 31, que será realizada em novembro na Turquia, pode ser uma chance de avançar no combate ao aquecimento global. Mas o papel dos bancos é fundamental: eles ainda financiam projetos que causam poluição e desmatamento. Saiba como o sistema financeiro influencia a crise climática e o que precisa mudar.
Entre os dias 9 e 20 de novembro, a cidade de Antalya, na Turquia, sediará a COP 31 do Clima. A COP é a sigla para Conferência das Partes, que reúne os países que assinaram a Convenção do Clima em 1992, no Rio de Janeiro. A última COP, a da Amazônia, no ano passado, em Belém, foi mais um fracasso em buscar soluções concretas para deter o aquecimento global, que está cada vez mais intenso, provocando a onda de eventos climáticos que temos visto em escala crescente.
Em 2026, registramos ondas de calor históricas na Europa, chuvas históricas em setembro no Brasil e, agora, queimadas intensas na Amazônia, deixando cidades como Manaus debaixo de fumaça por vários dias, obrigando os moradores a usar máscaras o tempo todo. Isso mostra o cenário do que está por vir e vai se agravar se medidas urgentes não forem tomadas. Infelizmente, não há prognóstico positivo para a COP 31. Há três décadas, os países se reúnem para achar soluções para frear o aquecimento global, causado principalmente pela emissão de gases de efeito estufa (GEE), derivados da queima de combustíveis fósseis, como petróleo, gás e carvão.
- A COP 31 será realizada na Turquia, entre 9 e 20 de novembro.
- Eventos climáticos extremos, como ondas de calor e enchentes, estão ficando mais comuns.
- Os bancos ainda financiam projetos que causam desmatamento e poluição.
- A aliança de bancos Net-Zero Banking Alliance foi encerrada em outubro de 2025.
- O Banco Mundial também é alvo de críticas por apoiar empreendimentos que prejudicam o meio ambiente.
O papel dos bancos na crise climática
Cada vez mais se fala da importância de acelerar a transição energética, para usar fontes de energia limpa, como eólica, solar e hídrica. O planeta tem avançado no uso dessas fontes renováveis, mas ainda se investe muito em combustíveis fósseis e em outras ações que aceleram a emissão de GEE, como o desmatamento.
Neste panorama, é fundamental o papel do sistema financeiro para que haja uma solução de verdade para a questão climática. Mas a função dos bancos é muito pouco citada quando se debate o assunto, o que é um grande erro. O sistema financeiro global, de forma geral, continua apoiando projetos de uso de combustíveis fósseis e outros empreendimentos, como aqueles que levam ao desmatamento, e com isso contribui muito para a continuidade do aquecimento global.
Em 2021, com grande apoio do então enviado especial da ONU para Ação Climática, Mark Carney, atual primeiro-ministro do Canadá, foi criada a Net-Zero Banking Alliance (NZBA), uma aliança de grandes bancos, com apoio das Nações Unidas, com o objetivo de buscar a limitação de financiamento de projetos que agravassem as mudanças climáticas.
Uma aliança que não deu certo
Entretanto, no contexto de grandes retrocessos internacionais, derivados de pressões como as que surgiram com a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, simplesmente a NZBA anunciou em outubro de 2025 que estava encerrando suas atividades.
A Aliança tinha entre seus membros corporações financeiras do porte de JP Morgan Chase, Bank of America, Citigroup, Morgan Stanley, HSBC e Barclays. Ou seja, grande parte da elite do sistema financeiro. A NZBA chegou a ter 140 membros, somando US$ 74 trilhões em ativos. Contudo, a Aliança acabou, entre outros motivos, pelos conflitos crescentes entre os grupos de acionistas e a direção dos bancos, que discordavam sobre os rumos a tomar. Havia queixas de que os acionistas estavam perdendo grandes somas com as políticas verdes em curso.
Mas não são apenas os bancos privados que estão recuando em suas posições que apontavam para um apoio cada vez maior à transição energética. Também continuam as críticas às políticas dos chamados bancos de desenvolvimento, como o Banco Mundial (Bird).
Um caso brasileiro
Recentemente, a Corporação Financeira Internacional (IFC), ligada ao Banco Mundial, teria revisto um empréstimo de US$ 20 milhões a um grupo brasileiro, após a mobilização de ativistas e da comunidade indígena Apinajé, que solicitaram que a instituição interrompesse o financiamento. A alegação foi que a fábrica de ração que seria construída com o financiamento implicava em uma cadeia produtiva com impacto em desmatamento em áreas reivindicadas pelo povo Apinajé.
Financiar uma empresa envolvida em conflitos fundiários e acusada de desmatamento ilegal não está alinhado com as políticas da IFC, nem com os objetivos do Acordo de Paris ou do Marco Global para a Biodiversidade, salientou um conjunto de 100 organizações da sociedade civil, em carta enviada ao IFC em maio de 2026, o que teria levado a instituição a cancelar o financiamento.
Um julgamento histórico
Em setembro de 1988, eu estive em Berlim, ainda na então Alemanha Ocidental, para fazer a cobertura jornalística da sessão do Tribunal Permanente dos Povos (TPP), que julgou o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, pelas políticas que estavam adotando com impacto no agravamento da dívida externa e no desmatamento da Amazônia.
Na ocasião, o TPP, em encontro na Universidade Livre de Berlim, teve como jurados nomes como o escritor uruguaio Eduardo Galeano; o Prêmio Nobel da Paz argentino, Adolfo Perez Esquivel; e vários outros membros, entre juristas internacionais, parlamentares de vários países e outros Prêmios Nobel.
Como testemunhas de acusação, entre outros, estavam a indiana Vandana Shiva, o padre de origem italiana Ângelo Pansa (que atuava na Amazônia), o economista Aloysio Mercadante (atual presidente do BNDES) e Paulo Schilling, representando a Comissão de Justiça e Paz brasileira.
A sentença daquela sessão do Tribunal foi que o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial deveriam respeitar os princípios do direito internacional e os direitos dos povos, na medida em que as políticas dessas instituições estavam agravando as desigualdades, limitando a autonomia dos Estados endividados e violando o direito dos povos ao desenvolvimento e à autodeterminação econômica. Eram políticas então coniventes com o desmatamento, por exemplo na Amazônia.
Conclusão
Depois desta sessão do TPP, Banco Mundial e FMI reajustaram suas políticas, para que houvesse maior respeito às comunidades locais atingidas pelos projetos financiados. Entretanto, a recente mobilização em relação a projeto que seria financiado pelo IFC mostra que ainda é necessária uma mudança mais profunda nas políticas de financiamento, também dos bancos de desenvolvimento.
Enfim, o sistema financeiro internacional, privado ou de apoio ao desenvolvimento, precisa ser revisto, em razão de seu papel central no atual processo global que leva ao agravamento das mudanças climáticas. Sem isso, soluções que serão decididas na COP 31 ou outros fóruns internacionais sobre o clima continuarão sendo paliativas.


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