Projeto acolhe mulheres vítimas de violência em Campinas com informação, atendimento psicológico e incentivo à independência financeira. Ação com adolescentes ensina prevenção desde cedo.
Todas as noites, Lidiane tranca a porta do quarto e dorme com duas facas ao lado da cama. Ela teme que o marido, que já a agrediu, entre e a ataque novamente.
Outras mulheres também enfrentam violência, mas de maneiras diferentes.
- O projeto Trilhando Caminhos já atendeu 100 mulheres no primeiro ano e hoje conta com 60 participantes.
- Oferece atendimento psicológico, orientação jurídica, rodas de conversa e oficinas sobre direitos e saúde.
- Muitas mulheres só percebem que sofrem violência depois de participar das atividades.
- A dependência financeira é um dos maiores obstáculos para deixar relações abusivas.
- A Lei Maria da Penha completou 20 anos em 2026, mas casos de feminicídio ainda são frequentes.
Uma mulher passou décadas carregando a culpa por um abuso sexual sofrido na infância.
Outra cresceu ouvindo ofensas sobre sua aparência e só na vida adulta compreendeu o racismo por trás daquelas palavras.
Há ainda quem tenha encontrado na produção de pães e produtos artesanais uma oportunidade de conquistar a própria renda e ir superando as adversidades do cotidiano.
São histórias que se cruzam no Trilhando Caminhos, projeto desenvolvido pelo Centro Promocional Tia Ileide (CPTI), em parceria com a Fundação FEAC, em Campinas.
O projeto nasceu no Distrito de Nova Aparecida, região norte da cidade, e depois expandiu para bairros próximos. Atendeu 100 mulheres no primeiro ano e hoje tem 60 participantes.
O objetivo é oferecer acolhimento, informação e apoio para que mulheres reconheçam situações de violência e ampliem suas possibilidades de escolha.
Os nomes das quatro entrevistadas nesta reportagem são fictícios, para preservar suas identidades.
Entre o reconhecimento da violência e a busca por autonomia
Lidiane, de 50 anos, cresceu em uma família rígida. Achou que casar traria liberdade, mas sofreu novas formas de violência.
O marido usa álcool e a convive com humilhações, ameaças e dificuldades financeiras. Ela já tentou terminar várias vezes, mas não consegue se manter sozinha. "Infelizmente ainda não consigo sair da minha casa e me manter sozinha. Hoje meu espaço em casa é o meu quarto trancado", relata.
No Trilhando Caminhos, ela passou a reconhecer comportamentos que antes não via como violência. Recebe incentivo para empreender e buscar alternativas de renda, com a esperança de conquistar independência financeira.
O apoio, porém, não eliminou o medo. Ela sonha: "Quero ter paz para dormir, assistir TV e deitar num sofá tranquila".
Maria, de 62 anos, sofreu abuso sexual na infância. Um dia, levava marmita para o pai quando foi abordada por um desconhecido. Durante muito tempo, não falou sobre o assunto com a família e carregou culpa que não era dela.
Com o projeto, entendeu que não foi culpada. "Eu consegui me libertar de uma culpa que eu carregava e entendi que eu fui somente uma vítima", conta. "Isso trouxe alívio para minha história e meu sofrimento."
Glória, de 74 anos, é mulher negra e cresceu ouvindo comentários depreciativos sobre sua aparência. Não sabia que aquilo era racismo. "Eu fiquei achando que era feia, não sabia que era preconceito", relata.
Na juventude, sonhava em ser jornalista. Não seguiu a profissão, mas hoje compartilha informações e mobiliza a comunidade. Ajuda vizinhos a buscar direitos, convida pessoas para o CPTI e luta por melhorias no bairro, como asfalto e saneamento. Também faz aulas de informática para aprender mais. Para ela, a informação deve circular, especialmente entre mulheres.
Rita, de 50 anos, começou a vender pães para ter uma renda. Casada e mãe de quatro filhos, passou a vida cuidando da família e dependendo do marido. Incentivada por uma prima, aprendeu a fazer pães e passou a comercializá-los.
Com o dinheiro, comprou, em parcelas, uma bicicleta rosa para entregar as encomendas no bairro.
No Trilhando Caminhos, recebeu incentivo para ampliar a produção, incluindo cremes, sabonetes, sprays e perfumes.
"Hoje consigo comprar minhas coisas sem depender do dinheiro do meu marido. Essa independência me fez muito bem", conta.
Orientação e caminhos para a autonomia
Criado em setembro de 2023, o Trilhando Caminhos surgiu para ampliar o acompanhamento de mulheres em situação de violência, complementando o trabalho do CPTI nos serviços de convivência.
Laís Vieira, analista da Fundação FEAC e especialista em enfrentamento às violências, diz que a iniciativa foi criada para atender uma demanda de uma área vulnerável do norte de Campinas, marcada por violência doméstica e redes de proteção fracas.
Mesmo depois de reconhecer a violência, muitas mulheres enfrentam dificuldades para romper um relacionamento abusivo.
A dependência econômica, a sobrecarga com cuidados dos filhos, o sofrimento emocional e o acesso difícil a serviços públicos tornam esse processo mais complexo. "Enfrentar a violência exige uma resposta integrada, com políticas de assistência social, saúde, justiça e segurança pública", afirma Laís.
São oferecidos acompanhamento psicossocial, orientação jurídica, rodas de conversa e oficinas sobre direitos, saúde e tipos de abuso. As participantes recebem mensalmente kits de autocuidado com produtos de higiene, como xampu, condicionador, absorventes e creme dental.
Segundo a Fundação FEAC, 60% das mulheres não sofreram reincidência de violência ao longo do projeto, e 80% das famílias passaram a ter práticas parentais positivas. Laís percebe mudanças nos relatos: maior conhecimento de direitos, autoestima fortalecida e melhores condições para projetar suas vidas.
Clarice Carlota, coordenadora técnica do CPTI, diz que um dos maiores desafios é ajudar as mulheres a identificar comportamentos que parecem normais por terem sido naturalizados.
"Impedir uma mulher de trabalhar, controlar seu dinheiro ou determinar as roupas que ela pode usar são exemplos de atitudes abusivas", destaca.
Esse reconhecimento nem sempre é imediato. Clarice lembra de uma idosa que não via como violência os gritos da filha e sofria com controle de seu cartão bancário. Só nos atendimentos entendeu que essas situações também são violência doméstica. "Nosso papel é orientar e fortalecer", afirma.
Um dos objetivos é incentivar a geração de renda. Mulheres com habilidades em bordado, pintura, costura e artesanato recebem orientações para compartilhar conhecimentos, organizar produção e vender. Algumas já vendem em feiras.
Duas décadas de proteção e desafios
Em 2026, a Lei Maria da Penha completou 20 anos. Sancionada em 7 de agosto de 2006, representou um marco contra a violência doméstica, criando mecanismos de prevenção, assistência e proteção à mulher.
A lei passou por atualizações. Em 2026, incluiu a violência vicária, além das formas física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.
Violência vicária é quando o agressor atinge filhos, familiares, dependentes ou pessoas da rede de apoio para causar sofrimento à mulher. Ameaçar ou ferir animais de estimação também é uma forma de controle.
Nem toda violência deixa marcas visíveis. Humilhações, coerção sexual e controle financeiro também podem caracterizar relações abusivas.
Um desafio é identificar comportamentos naturalizados, como perseguições, controle da rotina e descumprimento de medidas protetivas. Conhecer o histórico de agressões é importante para identificar riscos e acionar a rede de proteção.
Em Campinas e região, foram registrados 22 feminicídios entre 1º de janeiro e 11 de outubro de 2026. O número mostra a gravidade e que, mesmo após 20 anos da lei, ainda há muito a fazer.
Aprender a reconhecer a violência desde cedo
Identificar comportamentos abusivos desde a adolescência é uma forma de prevenção. Cerca de 30 estudantes de escolas públicas de Campinas, entre 13 e 17 anos, produziram um curta-metragem chamado "Até Quando", do projeto Curta da Educar, da Fundação Educar.
O filme, com cerca de seis minutos, conta a história de Marcela, uma jovem que sofre abusos de pessoas próximas, como irmão, chefe e vizinho, até chegar a uma tentativa de feminicídio.
Durante a criação do roteiro e as gravações, os jovens compartilharam situações que presenciaram ou viveram e passaram a perceber comportamentos que antes não identificavam como violência.
Murillo Faria de Almeida, de 15 anos, um dos participantes, disse: "Eu sendo um menino, só de ler o roteiro já senti aquele medo. Imagina as mulheres que sentem isso na pele"
Cristiane Stefanelli, da Fundação Educar, ressalta que a iniciativa vai além do filme: "Um curta-metragem sozinho não resolve um desafio tão complexo, mas pode ser um impulsionador para ampliar debates e estimular ações transformadoras"
O curta "Até Quando" está disponível gratuitamente no YouTube.
Saiba onde buscar ajuda
Mulheres em situação de violência podem buscar orientação e denunciar pelo Ligue 180, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia, todos os dias. O canal também recebe denúncias de testemunhas.
Em emergências ou risco imediato, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo telefone 190.


Trilhando Caminhos: acolhimento e apoio para que mulheres reconheçam situações de violência e tenham possibilidades de escolha. Foto: Leandro Ferreira/Hora Campinas






