03 de outubro de 2026

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Priscilla: Como separar o sonho da carreira sem perder a essência

Cultura Música 03/10/2026 16:50 Leonardo Torres - POPLine portalpopline.com.br

A cantora Priscilla compartilha sua estratégia para lidar com a indústria musical: trata a música como sonho em casa e como produto no mercado, uma abordagem que equilibra paixão e pragmatismo para sustentar a carreira.

A cantora Priscilla é a décima convidada da Coluna Pop, um espaço no POPline para os artistas expressarem suas opiniões, anseios e perspectivas sobre música e mercado, e compartilharem histórias pessoais, em comemoração aos 20 anos do portal.

Quando eu entendi que o objetivo de sonhar não era viver numa fantasia e sim tornar a minha realidade fantástica, a minha arte fez as pazes com o meu produto.

  • Priscilla separa a música em duas esferas: sonho dentro de casa e produto no mercado.
  • A artista reconhece que a arte nasce de emoções, mas precisa atender a metas comerciais.
  • Ela viveu conflitos intensos ao tentar impor valor sentimental a projetos em uma grande gravadora.
  • Uma sessão de terapia ajudou a aceitar que as decisões do mercado são baseadas em retorno, não em sentimento.
  • A profundidade da arte continua tendo espaço, desde que o artista entenda a lógica do negócio.

O desafio de separar o profissional do pessoal

É muito difícil para um artista separar o profissional do pessoal. Acredito que isso acontece porque a arte nasce do nosso íntimo, de um lugar que só o artista tem acesso. É impossível separar o artista das suas emoções enquanto criamos, afinal, na maioria das vezes nossas criações nascem a partir das nossas emoções. Mas alguns conflitos aparecem quando a arte é o nosso sustento. Automaticamente precisamos torná-la um produto e inseri-la num mercado que tem o seu próprio mecanismo e o seus próprios objetivos, e que na maioria das vezes não vai se importar com o valor sentimental do seu produto, apenas com o seu valor comercial.

Alinhando expectativas para a sobrevivência

Mas seria mesmo esse conflito necessário Ou seria apenas o caso de equilibrarmos as nossas expectativas, entendendo que a arte, ao mesmo tempo que pode ser o nosso sonho, também pode ser o nosso produto, e que isso não nos faz menos artistas. Durante a produção de um dos meus álbuns, quando eu ainda era parte de uma major, eu vivi esse conflito de forma muito intensa. Já saí de muitas reuniões, após apresentar meus projetos, extremamente frustrada por sentir que as pessoas não conseguiam enxergar a minha música com o devido valor, com todo o significado que ela tinha pra mim, que sempre foi muito além de números, porque ali também estava em jogo o meu sonho. A música era tudo que eu sempre quis. Como eles não conseguiam enxergar isso

A lição aprendida na terapia

Lembro que um dia levei essa pauta para uma sessão de terapia e a conclusão foi muito simples: não é nada pessoal. Sim. Absolutamente nada pessoal. É como as coisas são e, por mais que elas não pareçam ideais, precisamos aceitar que existe uma realidade e nós precisamos alinhar as nossas próprias expectativas em relação a ela. Questão de sobrevivência. E daí eu parei de sofrer. Fiz um acordo comigo: da porta de casa para dentro, a música é o meu sonho, e da porta de casa para fora, ela é o meu produto. Estamos falando de contas pagas no final do mês, metas a serem batidas, satisfações a serem dadas.

A indústria como mercado real

A indústria musical é um mercado e não uma fábrica de sonhos. Nesse mercado, a sua arte se torna um produto colocado numa prateleira. E não, isso não significa esvaziar a sua arte de significado para se tornar vendável, porque profundidade e excelência sempre vão ter espaço e notoriedade, por mais que o fluxo faça parecer o contrário.

Conclusões práticas para o artista

O sonho tem como função ser a força motriz que sustenta a nossa jornada, que sempre será cheia de batalhas e contradições. Quanto antes o artista entender isso, mais ele é capaz de se proteger e ainda prosperar. Somos capazes de criar com emoção, fazer arte por paixão e levá-la pelo mundo a fora com a razão. A indústria não é uma vilã. Ela não é o rosto daquela pessoa que disse que não haveria investimento para algo que não desse retorno. Então eu concluo que cabe a mim enquanto artista entender algumas coisas:

  • O valor da minha arte é diferente do valor do meu produto.
  • O valor da arte é imensurável e o valor do produto é pura matemática.
  • Enxergar a minha arte como um produto não me faz menos artista. A ambição desenfreada pela fama e popularidade, sim.

Afinal, não é nada pessoal.


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