A coluna de Mauro Condé reflete sobre a diferença entre oferecer apoio e tentar controlar a vida de quem amamos, usando o lançamento do filme 'A Terapia Certa' na Netflix como exemplo de como a intervenção excessiva pode ferir os vínculos.
A mensagem está pronta: Você vai se arrepender.
Uma mãe encara o nome do filho no celular. Sobre a mesa ... uma passagem só de ida. Ele é adulto. Não pediu conselho. Ela ... que um dia segurou sua mão para atravessar a rua ... agora teme a estrada que ele escolheu. O dedo paira sobre enviar.
O perigo do controle disfarçado de cuidado
O que parece cuidado pode esconder outra coisa: nossa dificuldade de assistir, sem dirigir, à vida de quem amamos. No filme A Terapia Certa ... recém lançado na Netflix ... Ricardo Darín interpreta um psicanalista que perdeu a fé em seus métodos e passou a interferir às escondidas na vida dos pacientes. Até que um escritor sem palavras... vivido por Diego Peretti... atravessa sua porta. A comédia argentina nos faz rir da audácia do terapeuta. Depois... a risada engasga: quantas vezes fizemos o mesmo fora do consultório O pai que escolhe a profissão do filho... o parceiro que chama vigilância de proteção... o amigo que responde antes de escutar.
Por que queremos dominar
Nem sempre queremos dominar alguém. Às vezes, queremos apenas aliviar o pavor de não conseguir protegê-lo de tudo. Nosso conselho urgente pode servir primeiro para acalmar quem o dá. Há uma diferença imensa entre oferecer a mão e tomar o volante. Na psicoterapia ... um estudo conduzido pelo Dr. Christoph Flückiger encontrou associação entre vínculo terapêutico e resultados do tratamento. Isso não prova que ouvir resolva tudo. Mas recorda algo que a pressa costuma apagar: confiança e respeito não são detalhes do cuidado. Experimente na próxima conversa difícil... antes de distribuir soluções, pergunte: Quer que eu escute, que pense com você ou que ajude a agir Espere a resposta. Se ela contrariar sua vontade, permaneça.
Quando intervir é possível
Quando há perigo real, intervir pode ser necessário. Discordar de uma escolha, porém, não transforma essa escolha numa emergência. Assista A Terapia Certa sem buscar um manual de felicidade nem antecipar suas surpresas. Veja o que acontece quando alguém confunde ajudar com decidir. Depois... volte àquela mãe e à tela iluminada. Ela apaga Você vai se arrepender. Escreve: Me conta. O medo fica. A ordem, não. O futuro continua sendo do filho. Mas agora a mãe tem uma chance de fazer parte dele.
- Estudo do Dr. Christoph Flückiger mostra que a confiança no terapeuta é essencial para bons resultados.
- O filme A Terapia Certa retrata um psicólogo que interfere na vida dos pacientes sem pedir permissão.
- Dar preferência à escuta ativa pode aliviar a ansiedade de quem dá os conselhos.
- Intervir é necessário apenas em situações de perigo real, não apenas por discordância.
- A transformação começa ao trocar ordens por perguntas como Me conta.


Mauro Condé, colunista de comportamento


