22 de outubro de 2026

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Empresas do Paraná dão aula no trabalho para funcionários terminarem os estudos

Educação 22/10/2026 10:54 Mariah Colombo, g1 PR g1.globo.com Curitiba PR

Trabalhadores podem estudar em escolas montadas no próprio local de trabalho, no horário de expediente. No Brasil, mais de 73 milhões de adultos não terminaram a educação básica.

Três vezes por semana, Admilson Figueiredo de Andrade, de 46 anos, faz uma pausa no trabalho e troca o material de construção civil por lápis e borracha.

Ele trabalha na construtora MRV em Curitiba. A empresa tem um programa que, desde 2011, criou 326 escolas em canteiros de obras para ajudar funcionários a concluir os estudos. Mais de 7 mil pessoas já foram beneficiadas.

  • Programa Escola Nota 10 ajuda trabalhadores a estudarem no horário de serviço
  • Desde 2011, 326 escolas foram montadas em canteiros de obras da MRV no Brasil
  • Funcionários estudam alfabetização e preparação para o Encceja
  • Em dois anos, programa multiplicou salas de aula nos shoppings Multiplan
  • EJA (Educação de Jovens e Adultos) é alternativa pública, mas matrículas caíram 64,5% no Paraná

"Eu parei de estudar aos 16 anos para trabalhar. Hoje me arrependo muito. Tentei voltar outras vezes, mas não conseguia conciliar. Quando surgiu a oportunidade na MRV, me inscrevi na hora", conta Admilson.

Nas aulas, ele encontra a professora Silvana Bárbara no horário de expediente. Juntos, fazem atividades de alfabetização até preparação para o Encceja (exame que certifica jovens e adultos).

"A gente trabalha na sala de treinamento ou no refeitório. Montamos a escola ali: lousa, projetor, amplificador. Estudamos dentro do canteiro de obras", descreve a professora.

Admilson é uma das mais de 73 milhões de pessoas com 18 anos ou mais que não concluíram a educação básica no Brasil, segundo o IBGE.

Uma iniciativa parecida existe nos shoppings da Multiplan. No Park Shopping Barigüi, em Curitiba, a funcionária terceirizada Kamila de las Mercedes Sanchez Ilerrena, de 22 anos, participa das aulas todos os dias, também no horário de trabalho.

Natural de Cuba, ela mora no Brasil há dois anos e busca aprender português e revalidar seus diplomas. "Lá eu estudava nutrição. Tive que deixar tudo para vir para cá. Aqui você começa uma vida totalmente diferente", conta.

Para Kamila, a língua é a maior dificuldade.

Benefícios além da sala de aula

O programa também melhora a carreira. Pesquisa interna da MRV mostra que 83% dos funcionários querem ficar mais tempo na empresa por causa da iniciativa. Outros 89% sentem que sua produtividade aumentou.

"Vejo transformação na forma de pensar e se comportar. Alguns conseguem a certificação, outros fazem curso técnico, pensam em faculdade. É a realização de um sonho", afirma a professora Silvana.

No shopping, a diferença aparece na comunicação. "Acho que eles se sentem abraçados, principalmente pela questão cultural. Vindo de outros países, tem algo a mais na entrega", diz Marcela Bonandin, gerente de operações.

Conciliação de rotina

Para alunos como Admilson, retomar os estudos exige equilibrar trabalho, família e aprendizado. As aulas são planejadas para isso. "Tem aluno que ficou 40 anos sem estudar. A maior dificuldade é o tempo. São adultos com muitas responsabilidades", explica a professora.

O projeto conta com acompanhamento personalizado. Cada estudante passa por avaliação e recebe atividades sob medida. A cada 15 dias, novas avaliações ajudam a acompanhar a evolução.

"No começo tive medo, mas a professora é atenciosa. Isso me incentivou a continuar. Quero fazer o ensino superior", compartilha Admilson.

Outros caminhos

Quem não tem essa oportunidade pode usar a Educação de Jovens e Adultos (EJA), criada em 1996. Mas a procura vem caindo. No Paraná, as matrículas caíram 64,5% entre 2007 e 2025. No Brasil, 55,3%.

Segundo Luana Smeets, do Todos Pela Educação, a queda pode ser por falta de informação, necessidade de renda ou até falta de interesse. "O conteúdo pode não estar conectado com a vida adulta", diz.

O fechamento de turmas também dificulta o acesso. Atualmente, o Paraná tem 191 instituições com EJA: 141 escolas e 50 centros específicos. Em 2025, 510 alunos foram realocados.

Especialistas alertam que a educação é direito garantido pela Constituição. "Estamos falando de violação de direitos", afirma Smeets.

Uma alternativa é a EJA integrada à Educação Profissional, que une estudos e formação técnica. As matrículas nessa modalidade cresceram no Brasil.

Foco no futuro

O novo Plano Nacional de Educação (PNE), sancionado em abril de 2026, prevê alfabetizar 97% da população com 15 anos ou mais até 2030 e ampliar a EJA profissional.

Para alcançar esses objetivos, é preciso monitoramento constante. "Não é desenhar uma estratégia e seguir por 10 anos. O acompanhamento deve dar informações para os tomadores de decisão", defende a especialista.


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