Análise do Observatório do Clima revela que 70% dos novos parlamentares brasileiros têm pouca ou nenhuma afinidade com as pautas de clima e meio ambiente, o que pode levar a retrocessos na proteção ambiental.
A partir de 2027, os senadores e deputados federais que assumirão os mandatos para a próxima legislatura (2027-2031) estarão distantes das pautas ambientais e climáticas. Um novo estudo indica que sete em cada dez parlamentares eleitos são contrários à agenda socioambiental.
A conclusão é de uma análise realizada pelo Observatório do Clima, que utilizou o índice de convergência ambiental para medir o alinhamento dos votos e da atuação dos congressistas com as questões de clima e meio ambiente.
- O estudo classifica os parlamentares em faixas de alinhamento: muito baixa, baixa, boa e muito boa.
- Nas duas Casas do Congresso, 68,9% dos eleitos têm índice de convergência baixa ou muito baixa.
- No Senado, 79% dos senadores têm pouca afinidade com as pautas ambientais.
- O aumento da bancada de extrema direita no Congresso é apontado como a principal causa do distanciamento.
- Há risco de enfraquecimento dos órgãos ambientais e de retrocessos na proteção das florestas.
A metodologia utilizada pelo Instituto Democracia e Sustentabilidade adota quatro faixas para a medição. Elas dependem do percentual de alinhamento do parlamentar com a pauta verde. As faixas são: muito baixa (de 0 a 25%), baixa (de 26 a 50%), boa (de 51 a 69%) e muito boa (de 70 a 100%).
Quase metade do Congresso está distante das pautas verdes
Com os novos eleitos, o índice de convergência nas duas Casas do Congresso Nacional fica em 68,9% na categoria de baixo ou muito baixo alinhamento. Dentro desse grupo, 201 congressistas (33,8%) estão na faixa muito baixa. Já 208 parlamentares (35%) aparecem na faixa baixa.
Na outra ponta, nas faixas alinhadas às pautas de clima e socioambiental, 52 parlamentares (8,75%) foram classificados na faixa boa. Outros 133 (22,4%) estão na faixa muito boa de convergência.
Senado mostra maior afastamento da agenda ambiental
Apenas no Senado, o índice de alinhamento baixo ou muito baixo é de 79%. Isso significa que 64 dos 81 senadores da próxima legislatura têm pouquíssimo ou nenhum alinhamento com pautas como iniciativas de conservação, enfrentamento das mudanças climáticas e adaptação das cidades.
Apenas 17 senadores, o equivalente a 21% do total, estão nas faixas boa ou muito boa de convergência. Desse total, 12 estão na faixa boa e apenas 5 na faixa muito boa. Na comparação com a legislatura que encerrará este ano, o Senado aumentou o distanciamento, passando de 58 para 64 senadores com índice de convergência ambiental baixo ou muito baixo.
Câmara dos Deputados também se afasta das pautas climáticas
Dos 513 parlamentares que integrarão a Câmara dos Deputados, 67,3% estão nas faixas baixa ou muito baixa, somando um total de 345 deputados e deputadas federais. Estão na faixa boa 40 parlamentares e 128 na faixa muito boa.
Na avaliação do Observatório do Clima, a piora decorre do crescimento de partidos de extrema direita nas Casas, que historicamente apresentam convergência ambiental muito baixa. O Partido Liberal (PL), por exemplo, passou de 15 para 28 cadeiras no Senado e de 98 para 121 deputados federais na Câmara.
Este quadro evidencia quatro anos de muito esforço para aqueles que atuam em clima e meio ambiente, e muita preocupação tanto com graves retrocessos quanto com as terríveis consequências disso tudo para a crise climática, destaca Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima.
Riscos para a proteção ambiental no Brasil
Suely Araújo avalia que esse cenário coloca em risco parte importante da proteção ambiental do país. Ela aponta possíveis retrocessos, como o enfraquecimento da atuação dos órgãos ambientais, a anistia a grileiros e a diminuição da proteção às florestas e biomas brasileiros.
Além da plataforma Farol Verde, do Instituto Democracia e Sustentabilidade, a análise fez uso de fontes oficiais como Câmara, Senado, assembleias legislativas e governos para classificação de parlamentares eleitos ainda sem classificação no índice de convergência ambiental.


Floresta Amazônica conservada em Caracaraí, Roraima. Foto: Fabíola Sinimbú/Agência Brasil


