Dados revelam que 6 em cada 10 brasileiros detidos pela polícia de imigração norte-americana (ICE) são deportados. A grande maioria não cometeu crimes, mas está em situação irregular. O tempo de espera por julgamento caiu drasticamente sob o governo Trump.
Seis em cada dez brasileiros detidos pelo ICE, a polícia de imigração dos Estados Unidos, são deportados. Dois terços deles não são acusados de nenhum crime. Para eles, o único 'pecado' é a irregularidade migratória, que nos EUA é uma infração civil, e não um crime. Em média, essas pessoas esperam 37 dias entre a prisão e a decisão da justiça.
Os dados, inéditos, foram organizados pelo Observatório das Deportações, um projeto ligado à Universidade Estadual de Montes Claros, em Minas Gerais. As informações foram obtidas pelo Deportation Data Project, um instituto que pediu os dados ao ICE usando a lei de acesso à informação dos EUA.
- O aumento foi bruto: As prisões nos dois primeiros anos do governo Trump são mais que o dobro das realizadas nos últimos dois anos do governo Biden.
- Concentração na Costa Leste: A maioria dos presos vive em Massachusetts, Flórida, Nova Jersey, Pensilvânia e Nova York.
- Sem culpa criminal: Quase 60% dos detidos não responderam a processos criminais; eles estavam apenas sem visto válido.
- Processos mais rápidos: O tempo médio para receber uma sentença ou ordem de expulsão caiu de 161 dias (em 2024) para 37 dias (em 2026).
- Alvo do governo: A estratégia prioriza a expulsão de homens adultos provedores de família, forçando o restante do grupo familiar a deixar o país voluntariamente.
Quem são os brasileiros detidos pelos EUA
As informações se referem aos anos de 2023 e 2024 (governo Biden) e 2025 e 2026 (governo Trump). Para o último ano, os números estão disponíveis apenas até agosto, mas ainda são considerados incompletos. O número de pessoas detidas nos dois primeiros anos do governo republicano é mais do que o dobro das apreendidas nos últimos dois anos da gestão democrata.
Até agosto de 2026, 3.650 brasileiros foram presos, sendo o mês de julho passado o de maior pico, com 709 detenções. O ICE não informa quantos desses imigrantes entraram no país de forma irregular, cruzando a fronteira com o México, por exemplo. As detenções estão concentradas na Costa Leste dos EUA, onde vive a maior parte da comunidade brasileira no país, em especial nos estados de Massachusetts, Flórida, Nova Jersey, Pensilvânia e Nova York, nesta ordem. A média de idade dos brasileiros presos é de 34 anos.
Infrações civis e a aceleração da Justiça
Quase 60% dos detidos pelo ICE nos últimos dois anos não foram acusados formalmente de nenhum crime. Em sua maioria, os brasileiros são detidos por estarem no país em situação irregular, sem um visto válido, o que constitui uma infração civil, não penal. Outros 30% são acusados de algum crime, mas ainda não tiveram a sentença emitida pelo juiz. Os 10% restantes já foram considerados culpados.
A base de dados pública não especifica de quais crimes são acusados esses brasileiros, mas a reportagem ouviu de pessoas que acompanham esses casos que delitos ligados a tráfico de drogas e violência contra a mulher costumam ser os mais comuns. Fruto do aumento exponencial no número de detenções, que exigiu maior celeridade do sistema judicial, o tempo médio para a emissão de uma sentença judicial, no caso dos acusados de crime, ou uma ordem de deportação, no caso dos que cometeram infrações civis, caiu. Neste ano, a média é de 37 dias. No último ano de Biden, em 2024, era de 161 dias.
Liberdade condicional e o impacto nas famílias
Em geral, o imigrante pode pedir um habeas corpus para responder em liberdade ou também pedir para retornar voluntariamente ao seu país. Grande parte dos detidos neste ano, em torno de 30%, fica em liberdade condicional. Isso inclui as possibilidades de ser monitorado por meio de tornozeleira eletrônica ou de se apresentar uma vez por mês à Justiça enquanto se espera uma decisão judicial. Essa porcentagem cresceu em 2026, o ano recorde de detenções de imigrantes, o que desafia a capacidade do sistema prisional.
Ainda que a maioria dos detidos seja maior de idade, há também 569 crianças que foram presas nos dois primeiros anos do governo Trump. Neste aspecto, a administração não se difere do que era feito na gestão democrata, dado que nos últimos dois anos de Biden foram presos 625 menores de idade do Brasil. Em geral, as crianças são levadas com os pais, sob a justificativa de que ficariam sozinhas, e liberadas poucas horas ou dias depois, sem serem levadas para as prisões de longa estadia do ICE.
Estratégia de deportação de provedores de família
Em média, nos últimos quatro anos, 75% dos brasileiros presos eram homens, um perfil que cresceu ligeiramente (para 80%) durante o governo Trump. O pesquisador Julio D'Angelo Davies, antropólogo e coordenador do projeto que organiza os dados, explica que o perfil de gênero revela um movimento do governo de priorizar a deportação de homens adultos que são, muitas vezes, os provedores do lar.
Na sequência, muitas outras pessoas da família, como mulheres e crianças, buscam a autodeportação para se reunir com o familiar deportado no Brasil, dado que já não contam com fonte de renda nos EUA. Os dados sobre os que se autodeportam não são contabilizados, o que significa que não é possível ter um panorama real de quantos imigrantes se viram forçados a deixar os EUA devido à política migratória de Trump. Ainda assim, a reportagem ouviu de autoridades que a busca da saída voluntária cresceu nos últimos três meses, justamente quando o número de apreensões do ICE para todas as nacionalidades atingiu consecutivos recordes.
Documentação e o papel dos Consulados
Como a Folha revelou, houve uma disparada nas solicitações de certidão de nascimento para crianças nascidas nos EUA filhas de brasileiros. Foram mais de 21 mil em 2025, ante 5.600 quatro anos antes. Autoridades consulares relacionam a cifra à procura de famílias que temem ter de se autodeportar e ainda não tiraram a documentação dos filhos, como o passaporte.
Setores consulares brasileiros tiveram de aumentar o número de funcionários dedicados a cuidar de temas migratórios. No Consulado-Geral do Brasil em Boston, por exemplo, a cada dia, em média, surgem dois novos casos, seja de prisões de brasileiros, seja de brasileiros em liberdade condicional com tornozeleira eletrônica, seja de mulheres com crianças que precisam de ajuda.
Fronteras e o número real de prisões
O número real de brasileiros detidos é ainda maior. A base de dados organizada pelo Observatório das Deportações trabalha somente com as apreensões feitas pelo ICE. Ainda que hoje a maioria das detenções seja feita pelo ICE, há, ainda, alguns imigrantes apreendidos na fronteira dos EUA com o México por outra agência de controle ligada ao Departamento de Segurança Interna, o CBP.
De janeiro a maio, por exemplo, 176 brasileiros foram detidos pelo CBP na fronteira com o México. É um número muito menor do que o observado em anos anteriores, fruto da política restritiva do governo Trump para a fronteira. No mesmo período de 2024, por exemplo, foram mais de 10,7 mil brasileiros. Naquela época, diferentemente do que ocorre agora sob Trump, a enorme maioria dos pegos na fronteira não era detida, mas sim liberada sob o chamado "parole", uma autorização de entrada e permanência temporária.


Imagem ilustrativa sobre as detenções no interior dos Estados Unidos


