Colunista critica a transformação de manifestações públicas em comícios eleitorais, apontando que a pauta original fica em segundo plano quando candidatos usam o evento para pedir votos, desvirtuando o protesto.
Eu acompanho manifestações políticas em Balneário Camboriú há muitos anos.
Estive nas ruas ainda em 2013, quando milhares de brasileiros foram protestar por pautas diversas, num período em que a divisão entre direita e esquerda não organizava o debate da forma como faz hoje. Eu estava lá, fotografando. Vi de perto um mar de gente que parecia não ter fim.
- Aquelas manifestações de 2013 ajudaram a mudar a relação da população com a política no Brasil.
- A insatisfação com a classe política cresceu e novos movimentos ganharam espaço.
- Os protestos passaram a ser mais frequentes na vida pública brasileira.
- O 7 de Setembro se tornou uma data de grandes atos organizados por setores da direita.
- Muitos desses eventos em Balneário Camboriú foram acompanhados de perto pelo colunista.
Foi justamente por isso que o 7 de Setembro deste ano chamou tanta atenção.
Do protesto ao comício
Quem acompanha esses movimentos há algum tempo percebeu uma diferença importante. Pela primeira vez, o que deveria ser uma manifestação com uma pauta determinada acabou, em determinado momento, adquirindo contornos evidentes de comício eleitoral.
Ao longo dos últimos anos, os atos poderiam ter pautas diferentes: críticas ao STF, defesa ou crítica a Bolsonaro, ou outras bandeiras políticas. Podia-se concordar ou discordar delas. Mas havia uma pauta que justificava a presença das pessoas nas ruas.
Desta vez, essa fronteira ficou embaralhada.
O ato realizado em Balneário Camboriú havia sido apresentado como uma manifestação contra a atuação do Supremo Tribunal Federal, tendo Alexandre de Moraes como um dos principais alvos das críticas. Esse também foi o teor registrado em outros atos realizados pelo país naquele 7 de Setembro. Em Balneário Camboriú, cerca de três mil pessoas participaram, segundo estimativa divulgada pela organização.
Candidatos no palco
Mas, no meio disso, havia uma eleição acontecendo.
E havia candidatos.
O deputado estadual Carlos Humberto, do PL, candidato à reeleição, teve participação de destaque no ato. A manifestação também contou com materiais de apoio a políticos e candidaturas, além da presença de outros candidatos no caminhão de som.
Até aí, a presença de políticos em uma manifestação não é novidade. Políticos sempre participaram desses movimentos.
O problema começa quando a pauta que levou as pessoas às ruas deixa de ser protagonista e o candidato passa a ocupar esse espaço.
Foi essa a sensação deixada pelo ato de Balneário Camboriú.
Em vez de a manifestação utilizar os políticos presentes para amplificar sua pauta, parecia ocorrer o contrário: a manifestação passava a servir de cenário para a campanha eleitoral.
Bandeiras de candidatura, equipe uniformizada, números eleitorais e pedidos de voto começaram a dividir e, em determinados momentos, disputar o espaço com aquilo que havia levado parte daquele público até a praça.
Isso muda completamente a natureza de um ato.
A natureza do movimento
Uma coisa é um candidato comparecer a uma manifestação, subir ao caminhão de som e se posicionar sobre a pauta defendida por quem está ali.
Outra, muito diferente, é transformar aquele público em plateia eleitoral.
A manifestação deixa de ser o fim e passa a ser o meio.
Não importa sequer se os manifestantes presentes pretendiam votar naquele candidato. Quem observa as imagens depois pode ter a impressão de estar diante de uma demonstração coletiva de apoio eleitoral, quando aquelas pessoas foram convocadas originalmente por uma pauta política muito mais ampla.
É aí que está o problema.
Uma manifestação pertence às pessoas que decidiram sair de casa para defender uma causa. Não pertence ao político que consegue primeiro o microfone, o caminhão de som ou o espaço para colocar suas bandeiras.
Quem ocupa um movimento popular para promover a própria candidatura corre o risco de transformar cidadãos em figurantes de campanha.
E foi justamente essa impressão que ficou em Balneário Camboriú neste 7 de Setembro.
O movimento foi desvirtuado.
A pauta foi colocada em segundo plano.
E o que deveria ser manifestação, em vários momentos, pareceu comício.


Manifestação de 7 de setembro em Balneário Camboriú



