Em entrevista à Agência Brasil, presidenta da UNE, Bianca Borges, alerta que futuro do Brasil está em risco e convoca jovens a se mobilizarem contra o autoritarismo.
A preocupação com o futuro do país e os riscos para a democracia e a educação, às vésperas do segundo turno das eleições, levou o movimento estudantil a voltar às ruas. Milhares de estudantes fizeram protestos em várias cidades para defender a democracia e a educação pública, além de se posicionar sobre os candidatos e suas propostas.
Em entrevista à Agência Brasil, Bianca Borges, presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), falou sobre a importância dessas manifestações e lembrou a história de luta dos estudantes contra a ditadura, pelas Diretas, contra o impeachment de Collor e o governo Bolsonaro.
- UNE convoca estudantes a defender a democracia e a educação no 2º turno
- Bianca Borges é a primeira mulher presidenta da UNE em 40 anos
- Movimento estudantil já derrubou presidentes, como Collor, e lutou contra a ditadura
- Estudantes ocupam ruas desde o resultado do 1º turno
- UNE alerta para riscos de um governo autoritário e contra a educação
Neste momento, não temos apenas uma eleição em jogo, mas o futuro do nosso país, afirmou Bianca, citando o risco de um governo autoritário, contrário à educação e que representaria retrocesso.
Ela também destacou problemas nas universidades públicas, como falta de verba, necessidade de mais assistência estudantil e de garantir que alunos de baixa renda permaneçam nos cursos.
Para ela, defender a democracia é defender a universidade pública e melhores condições de vida para a juventude e para os trabalhadores. Ela também ressaltou que a mobilização deve continuar depois das eleições e que a participação coletiva é essencial para transformar reivindicações em direitos.
Os estudantes se levantam pelos direitos, pela educação, pela soberania e pela democracia diante dessa ameaça. Isso é uma tradição dos estudantes brasileiros, desde a fundação da UNE, comentou.
Na sexta-feira passada, o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), negou um pedido da campanha de Flávio Bolsonaro para censurar publicações de 54 dirigentes de sindicatos, movimentos sociais e entidades estudantis, incluindo a UNE.
Na área de educação, os candidatos têm propostas diferentes: Flávio fala em escolas cívico-militares, enquanto Lula propõe ampliar a educação integral.
Quem é Bianca Borges
Bianca Borges tem 25 anos, é estudante de Letras do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), nasceu em Itapevi e foi criada em Praia Grande, no litoral de São Paulo. Ela assumiu a presidência da UNE para o mandato 2025-2027.
Ela começou no movimento estudantil aos 14 anos, na Escola Técnica Estadual (Etec) de Praia Grande, onde foi representante de sala e, com colegas, fundou um grêmio.
Formada em Direito pela USP, ingressou em 2017 na universidade. Foi coordenadora-geral do DCE Livre da USP e diretora-geral do Centro Acadêmico XI de Agosto.
Ela também foi presidenta da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP), onde liderou a resistência contra propostas do governador Tarcísio de Freitas de privatização e militarização do ensino público. Integrou ainda a Organização Latino-Americana e Caribenha de Estudantes (Oclae).
Entrevista com a presidenta da UNE
Agência Brasil: O que explica a decisão de voltar às ruas
Bianca Borges: Vemos não só uma eleição em jogo, mas o futuro do país. A eleição de Flávio Bolsonaro representa o risco de um governo autoritário, contra a educação, de retirada de direitos. Os estudantes se levantam pelos direitos, pela educação, pela soberania e pela democracia. Isso é uma tradição desde a fundação da UNE. Já lutamos contra a ditadura, pelas Diretas, Fora Collor, Fora Temer, Fora Bolsonaro. Agora estamos na rua para que a reeleição de Lula garanta o futuro que queremos. O bolsonarismo é um inimigo concreto. Vivemos quatro anos de enfrentamento e não queremos que voltem ao poder.
Agência Brasil: Há relação com a Passeata dos 100 mil, de 1968
Bianca Borges: Com certeza. Tivemos um ato no centro do Rio de Janeiro, no dia 7, da Candelária à Cinelândia. Muitos disseram que havia tanta gente quanto na Passeata dos 100 mil. Nas falas, reverenciamos Edson Luís, mártir da luta contra o autoritarismo. A nossa indignação se converteu nesses protestos que têm tomado o país.
Agência Brasil: Quem participa dos atos Mudou o perfil
Bianca Borges: Começou pelas universidades. Na segunda-feira após o 1º turno, um ato na UFF, em Niterói, reuniu mais de mil estudantes. Foi a primeira fagulha. A maioria é universitária, organizada por centros acadêmicos, mas os secundaristas também têm surpreendido. O ato da Candelária foi convocado por estudantes do Colégio Pedro II. Os grêmios se somaram. Na terça-feira, em Brasília, fizemos uma grande manifestação, com trabalhadores se juntando a nós.
Agência Brasil: Quais as principais reivindicações
Bianca Borges: Em 2019, Bolsonaro apresentou o Future-se, que atacava a universidade pública. Ele nomeou 18 reitores interventores. Chamou centros acadêmicos de ninho de rato. Essa agenda antidemocrática avança sobre os estudantes. Nós já enfrentamos isso e não queremos de novo. Por isso estamos na rua pela vitória de Lula.
Agência Brasil: Quais propostas de Flávio representam riscos
Bianca Borges: Ele pouco debate educação. Sua preocupação é privar escolas e universidades do papel pleno. O tesouraço nos direitos sociais nos preocupa. As universidades sofrem com subfinanciamento há mais de 10 anos. Se retrocedermos, não poderão pagar bolsas nem manter laboratórios.
Agência Brasil: Quais as consequências para universidades
Bianca Borges: Uma das propostas dele é transferir a gestão das federais para o MCTI, com orçamento menor. Ele diz que quer aproximar do setor produtivo. Mas quer uma universidade voltada ao mercado. Nós defendemos uma universidade conectada ao desenvolvimento nacional, mas não apenas ao mercado.
Agência Brasil: O que a UNE entende por fascismo
Bianca Borges: Autoritarismo, deslegitimação da organização popular, desmonte da participação social, criminalização do movimento estudantil, incentivo à violência. Desde o início da mobilização, várias universidades receberam ameaças de incêndio. A sede da UNE foi incendiada no golpe de 1964. Recentemente, há incêndios na UFPE sob apuração. Isso mostra o espírito autoritário.
Agência Brasil: Por que apoiar Lula
Bianca Borges: Apoiar Lula é barrar o bolsonarismo, que representa violência política e entrega do país. Flávio já disse que servirá aos EUA, quer entregar as terras raras às mineradoras americanas. Nós acreditamos em um Brasil democrático e soberano.
Agência Brasil: O que está em jogo para os estudantes
Bianca Borges: Avançamos muito, mas queremos mais. Sob Lula, houve expansão das universidades federais e institutos. Contradições existem, mas Lula foi o que mais avançou na educação. Sob Flávio, não teríamos nem legitimidade para protestar.
Agência Brasil: Que compromissos faltam para universidades
Bianca Borges: Consolidar o Plano Nacional de Assistência Estudantil com orçamento robusto, mais investimentos nas universidades públicas, inclusive estaduais via PEC, e fiscalizar o ensino privado. Também defender 10% do PIB para educação.
Agência Brasil: O que dizer aos jovens que não se identificam com candidatos
Bianca Borges: Nosso desafio é encantar quem não está encantado. O caminho é participar de uma luta coletiva. Veja qual governo defende o fim da escala 6x1, criou o Pé-de-Meia. A universidade brasileira se ampliou graças a governos que apostaram nos pobres. Educação é passaporte para uma vida digna.
Agência Brasil: Como manter a mobilização após as eleições
Bianca Borges: A organização no movimento estudantil é o caminho. Independentemente do resultado, nossa luta não termina no dia 25. Se Flávio vencer, resistiremos; se Lula ganhar, cobraremos. Que o movimento siga amparado pela maioria dos estudantes.
** Em pronunciamentos e entrevistas, o candidato Flávio Bolsonaro tem dito que irá investir em educação e manter o piso constitucional. No programa de governo, ele propõe reformulação do ensino técnico, expansão das escolas cívico-militares e transferência do ensino superior para o MCTI.


© Rodrigo Matos/UNE





