Novo estudo mostra que a incidência de doenças inflamatórias intestinais, como Crohn e retocolite, aumentou de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2025, com projeção de crescimento até 2035.
O número de pessoas com doenças inflamatórias intestinais (DII) cresceu cinco vezes no Brasil, entre 2012 e 2025. A incidência dessas enfermidades, como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, passou de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes no período.
O dado foi apresentado em um estudo no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, realizado em Balneário Camboriú (SC). O levantamento foi conduzido por membros da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP): Abel Quaresma, da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), e Paulo Kotze, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), em parceria com pesquisadores das universidades de Calgary (Canadá), de São Paulo (USP) e estadual de Campinas (Unicamp).
- Alta significativa: Os casos subiram de 30 para 158 a cada 100 mil habitantes em 13 anos.
- Novos diagnósticos: O registro de novos casos anuais aumentou de 9,35 para 12,34 por 100 mil habitantes.
- Causas mistas: A doença é multifatorial, involving genética, poluição e hábitos alimentares.
- Impacto alimentar: Alimentos ultraprocessados com conservantes estão associados ao agravamento.
- Projeção sombria: Em 2035, a incidência pode chegar a 264 por 100 mil habitantes, tornando-se grave problema de saúde pública.
Crescimento dos registros no Sistema Único de Saúde
Com base em registros do Sistema Único de Saúde (SUS), os pesquisadores constataram que o número de novos casos diagnosticados por ano aumentou de 9,35 para 12,34 por 100 mil habitantes no mesmo período.
As doenças inflamatórias intestinais são enfermidades autoimunes. Isso significa que o sistema imunológico do corpo começa a atacar as próprias células e tecidos. Com isso, há um processo crônico de inflamação no intestino.
Genética e ambiente explicam as causas
Segundo Abel Quaresma, da SBCP, tanto a doença de Crohn quanto a retocolite ulcerativa são multifatoriais. Isso significa que não há apenas uma causa, mas sim várias. Pesquisas anteriores identificaram que há um fator genético associado. No entanto, nem todos os pacientes acometidos por essas enfermidades possuem as variações genéticas que estudos associam ao desenvolvimento das DII.
O fator ambiental, portanto, também tem relação com o desenvolvimento desses males. A gente não sabe o fator causal ainda. A gente sabe que são doenças multifatoriais. Tem a genética, a poluição, os hábitos alimentares. Nossa dieta mudou muito nos últimos anos, explica o pesquisador.
O especialista destaca que alimentos ultraprocessados detêm inúmeros aditivos que podem contribuir para essas doenças inflamatórias. Vinte anos atrás, você comprava um pão na padaria e, quatro ou cinco dias depois, ele mofava. Hoje em dia compra-se um pão de forma, ele fica três meses pronto para ser usado, afirma.
De acordo com ele, os conservantes, corantes e espessantes substâncias que deixam o alimento mais barato, dão maior volume, cor, cheiro e conservam o produto induzem essas doenças.
Projeção para 2035 e custo do tratamento
A expectativa dos pesquisadores é que o surgimento de novos casos chegue a 22,7 por 100 mil habitantes em 2035. Caso isso se confirme, a previsão é que a quantidade de pessoas com essas doenças pode chegar a 264 por 100 mil habitantes em 2035. Isso representa um aumento de 67% em relação ao observado em 2025.
São doenças que até por volta de 2015 eram consideradas doenças raras. E que estão tendo um boom em todo o mundo, inclusive no Brasil. A gente projeta que, a partir de 2040, vai se tornar problema de saúde pública, como é a pressão alta, o diabetes, adverte Quaresma.
O especialista explica que essas doenças não têm cura. O tratamento visa controlar o processo inflamatório e os sintomas. O custo destes medicamentos chega a R$ 500 mil por ano, por paciente. São pacientes que, muitas vezes, são diagnosticados ainda jovens e que precisarão de acompanhamento por décadas, conclui.


Pesquisa revela alta nas ocorrências de doenças do cólon. Foto: Adobe Stock/Nadzeya


