30 de outubro de 2026

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Calor traz mais dengue, oropouche e fungos ao Brasil

Saúde Clima 30/10/2026 12:05 Redação, Hora Campinas horacampinas.com.br

Dengue e febre do oropouche estão se espalhando mais com o aquecimento global. Estudo mostra que casos de dengue dobraram em muitas regiões do país, e o clima quente também aumenta o risco de infecções por fungos.

Desde os anos 1980, o Brasil tem surtos de dengue, mas o Rio Grande do Sul só teve um caso local em 2007. Antes, isso não acontecia porque o mosquito Aedes aegypti, que transmite a doença, prefere lugares quentes e úmidos, então o clima protegia o estado.

Essa proteção acabou. Em 2024, o Brasil bateu recorde de casos de dengue, e o Rio Grande do Sul teve quase 210 mil infecções e 281 mortes.

  • O mosquito Aedes aegypti se espalha mais em regiões quentes e úmidas.
  • Em 2024, o RS teve quase 210 mil casos de dengue.
  • A febre do Oropouche, antes da Amazônia, chegou a 23 estados.
  • Leptospirose aumentou após enchentes no RS.
  • Fungos como Candida auris estão se tornando resistentes.

Na Bahia, estado mais quente e com 3 milhões de habitantes a mais, foram cerca de 163 mil casos e 188 mortes.

Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostra que isso não ocorre só no Rio Grande do Sul. De 2006 a 2024, o número de microrregiões brasileiras com nível epidêmico de dengue mais que dobrou: de 110 para 292, abrangendo metade do país (54%).

As outras microrregiões (46%) têm incidência média ou baixa, com risco esporádico ou incerto.

A principal explicação é o clima. A pesquisa descobriu que a maior frequência de temperaturas anormais é o indicador que mais explica o aumento da dengue a longo prazo. Isso significa que as temperaturas estão ficando muito diferentes do habitual em vários lugares.

O processo de expansão da dengue parece ser irreversível. Uma vez introduzidos, o vírus e o mosquito dificilmente serão eliminados, alertam os pesquisadores.

Segundo o infectologista Celso Granato, da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, a propagação da dengue é uma das maiores provas de que as mudanças climáticas afetam as doenças infecciosas.

A doença tropical chegou a regiões mais frias do Brasil e a países do Hemisfério Norte. Agora, os Estados Unidos vivem o maior surto de dengue da história, e também houve casos na França e na Itália.

Granato explica que o clima afeta todas as fases da vida do mosquito transmissor.

Eles colocam ovos com casca resistente, que podem ficar anos na natureza e se romper com umidade e calor. Os mosquitos já nascem infectados, porque a fêmea transmite o vírus aos ovos.

Quando faz muito calor, eles precisam bater as asas mais rápido para voar, gastam mais energia e picam mais pessoas, transmitindo mais a doença.

Febre do Oropouche

A dengue não é a única doença afetada pelo clima. A febre do Oropouche, antes quase exclusiva da Amazônia, causou mais de 12 mil infecções no ano passado em 23 estados e no Distrito Federal.

A relação com o clima ainda está sendo estudada, mas especialistas acreditam que mudanças de temperatura e chuva, junto com a degradação ambiental, ajudaram a espalhar a doença.

Granato também alerta para surtos após eventos extremos, como secas e enchentes, que estão mais frequentes. O El Niño deve agravar isso.

No Rio Grande do Sul, depois das enchentes, os casos de leptospirose aumentaram muito, exemplifica.

A leptospirose é causada por bactéria transmitida pela urina de ratos, espalhada pelas enchentes.

A água da enxurrada se mistura com o esgoto e pode contaminar a água que as pessoas bebem ou usam para lavar alimentos. Há risco de contaminação por bactérias intestinais e vírus como o da hepatite A, diz.

Já as secas trazem outro perigo: Quando há incêndios, animais da floresta migram para as casas, principalmente pequenos mamíferos, que podem transmitir doenças aos humanos.

Um exemplo grave é o hantavírus. A cepa brasileira causa uma síndrome cardiopulmonar severa. Desde 2016, foram 530 infecções e 212 mortes, com letalidade de 40%.

Temos exemplos na Bolívia e no Paraguai: com as queimadas, roedores infectados entram nas casas e causam a doença, alerta Granato.

Fungos

Outra ameaça são as doenças fúngicas. Sarah Gonçalves Tavares, da Universidade Federal do Espírito Santo, alertou que as mudanças climáticas estão fazendo fungos se adaptarem e se tornarem nocivos aos humanos.

Nossa temperatura corporal média é 37°C, e 95% dos fungos no ambiente não crescem nessa temperatura. Mas com o aquecimento global, eles estão se adaptando, e essa barreira é rompida.

Ela explica que a temperatura é uma das engrenagens, junto com raios ultravioleta e outras mudanças ecológicas, que facilitam o surgimento de fungos patológicos.

Temos micro-organismos que viviam no ambiente e não causavam doenças, mas se adaptaram ao estresse e agora surgem, principalmente, em pacientes de UTI.

O maior exemplo é a Candida auris, encontrada na década de 1990 na Ásia, agora presente em cidades. Ela sobrevive em altas temperaturas e resiste por muito tempo.

Uma pessoa saudável dificilmente terá infecção, mas pacientes imunodeprimidos são vulneráveis. Os surtos ocorrem em hospitais, com letalidade de 40 a 60%.

O primeiro caso no Brasil foi em 2020, na Bahia. Desde então, foram 24 ocorrências em 15 estados, todas em hospitais. Dos 146 pacientes colonizados, 56 morreram; quando o fungo atinge a corrente sanguínea, a letalidade chega a 82%.

Um exemplo recente é o Trichophyton indotineae, fungo que causa problemas de pele, identificado em 2022.

Ele já surgiu resistente a antifúngicos, provavelmente por exposição no ambiente, e os remédios selecionam cepas resistentes.

Fungos resistentes não respondem aos tratamentos comuns. O clima também contribui: eventos extremos aumentam a vulnerabilidade das plantações, levando a mais uso de fungicidas, o que acelera a resistência.

Mudanças ambientais também dispersam fungos como Aspergillus, que prefere calor e umidade, e agora avança para novas áreas no Brasil.


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