04 de novembro de 2026

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Calor e poluição elevam risco de AVC em idosos, mostra USP

Saúde AVC 04/11/2026 12:06 Redação do Hora Campinas horacampinas.com.br São Paulo SP

Pesquisa da USP mostra que cada dia a mais de onda de calor, sobretudo quando o calor se junta à poeira fina da poluição, aumenta a chance de AVC em idosos na capital paulista. O trabalho também aponta que exercício físico e cuidado com o coração protegem o cérebro.

Um estudo feito por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que cada dia a mais de onda de calor na cidade de São Paulo está ligado ao aumento do risco de acidente vascular cerebral (AVC) agudo em pessoas com 65 anos ou mais. Na pesquisa, foi considerada onda de calor quando a cidade teve pelo menos dois dias seguidos com temperaturas máximas de 33,1 °C ou mais.

Esse efeito fica ainda mais grave quando o calor intenso se soma à poluição do ar por material particulado fino PM10. Esse material é uma mistura de partículas sólidas e líquidas microscópicas, geradas principalmente pela queima de combustíveis de veículos e por poeira que pode ser respirada, e está muito presente no ar da capital paulista. Segundo os dados, a cada dia a mais nessa combinação, cresce a probabilidade de um AVC entre idosos na capital paulista.

  • Estudo da USP olhou dados de São Paulo e encontrou mais AVC em idosos em dias de calor extremo.
  • Onda de calor foi considerada quando houve pelo menos 2 dias seguidos com máxima de 33,1 °C ou mais.
  • Calor junto com a poeira fina PM10 elevou o risco em 40,4% por dia extra.
  • A análise principal teve 769 casos de AVC; 54,2% eram mulheres e 65,5% tinham 65 anos ou mais.
  • Exercício físico e saúde do coração reduzem lesões nos pequenos vasos do cérebro.

Alguns resultados preliminares do trabalho, feito dentro de um projeto apoiado pela Fapesp, foram apresentados por Alessandra Carvalho Goulart, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), em palestra durante a FAPESP Week Países Baixos. O evento aconteceu até esta quinta-feira (29), no campus da Universidade de Leiden.

É a primeira vez que uma pesquisa epidemiológica de base populacional, ou seja, baseada em dados reais de uma grande parcela da sociedade, quantifica, na maior metrópole da América Latina, o impacto direto e agudo do estresse térmico sobre o risco imediato de AVC agudo em idosos, conta Goulart à Agência FAPESP.

Como foi feito

Para chegar a esses resultados, os pesquisadores utilizaram dados epidemiológicos do Estudo de Mortalidade e Morbidade do Acidente Vascular Cerebral (EMMA), projeto também conduzido na USP com financiamento da Fapesp.

O objetivo do EMMA é avaliar a epidemiologia (a distribuição e os padrões das doenças na população), os fatores de risco, as taxas de incidência, a sobrevida e o prognóstico de mais de mil casos de pacientes diagnosticados com AVC isquêmico tipo de derrame provocado pelo entupimento de uma artéria que impede a circulação de sangue no cérebro entre 2006 e 2018.

Com base nesse banco de dados, o grupo analisou uma amostra específica de 769 indivíduos diagnosticados com AVC agudo, dos quais 54,2% eram mulheres e 65,5% tinham 65 anos ou mais.

Por meio de um modelo estatístico, foram comparadas as condições do tempo e a qualidade do ar às quais os indivíduos foram expostos nos dias imediatamente anteriores ao evento neurológico. A partir dessa modelagem, calculou-se o efeito cumulativo a cada dia adicional de onda de calor.

No modelo que avaliou apenas o impacto do calor, identificou-se uma razão de chances (medida estatística que compara a probabilidade de um evento acontecer em um grupo em relação a outro) de 1,121.

No entanto, quando a análise estatística incluiu a interação contínua entre a onda de calor e a concentração de PM10, a razão de chances subiu para 1,404. Isso mostra uma elevação expressiva de 40,4% no risco por dia adicional sob essa combinação de calor extremo e poluição.

Os dados preliminares do estudo EMMA evidenciam que as mudanças climáticas e a poluição atmosférica não são apenas ameaças ambientais distantes, mas estressores urbanos imediatos que afetam a saúde do cérebro e deflagram eventos vasculares agudos na população idosa, afirma Goulart.

A pesquisadora explica que, no corpo, a exposição ao calor intenso provoca uma reação em cadeia. A sobrecarga térmica causa desidratação, o que diminui a parte líquida do sangue, deixando-o mais espesso e viscoso. Além disso, causa alterações profundas na termorregulação (a capacidade do corpo de controlar a própria temperatura) e na função cardiovascular.

Esse conjunto de alterações afeta o fluxo e a pressão do sangue no corpo e atua como um gatilho direto e imediato para o AVC, diz.

Proteção contra danos cerebrais

Paralelamente aos estressores ambientais, os pesquisadores avaliaram como os hábitos de vida e o cuidado cardiovascular protegem a estrutura neurológica contra a doença de pequenos vasos cerebrais (DPVC). Essa condição é caracterizada por alterações nas pequenas artérias do cérebro que podem levar ao declínio cognitivo e à demência.

Analisamos a saúde cardiovascular contínua por meio do escore Life's Essential 8 [métrica criada pela American Heart Association que monitora oito fatores fundamentais: alimentação, exercício físico, sono, tabagismo, índice de massa corporal, colesterol, glicemia e pressão arterial], relata Goulart. Os resultados demonstraram que, a cada incremento de 10 pontos nesse escore, há uma redução de 14% na chance de desenvolver lesões graves de pequenos vasos cerebrais.

Escudo cerebral

A prática regular de exercícios físicos também apareceu como um poderoso escudo protetor para a longevidade cognitiva e a preservação da memória.

Em uma amostragem de 1.200 voluntários do ELSA-Brasil dos quais 59,2% eram mulheres na faixa de 66 anos , os pesquisadores constataram que a manutenção de níveis moderados a elevados de atividade física esteve associada a uma redução de 21% a 22% no risco de apresentar marcadores de DPVC.

Entre esses marcadores estão as lacunas isquêmicas (pequenas cicatrizes deixadas por infartos cerebrais prévios), micro-hemorragias (pequenos sangramentos microscópicos no cérebro) e a expansão dos espaços perivasculares (inchaço nos canais que envolvem os vasos sanguíneos cerebrais).

Além de diminuir as lesões na microcirculação cerebral, constatamos que a movimentação corporal preserva o volume do córtex entorrenal, uma estrutura localizada no lobo temporal e fundamental para o processamento da memória e a navegação espacial, aponta Goulart.

A análise indicou uma diminuição de 21% a 30% no risco de atrofia cortical (perda de volume celular) no córtex entorrenal em ambos os hemisférios cerebrais entre os participantes mais ativos.


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